domingo, 26 de outubro de 2014

"A balada do Sr. João"



Obrigado pela visita,
Caro endividado,
Cujas ações acolhem o custo da dívida mista,
E mal põe comida no prato.
Pague-a por hoje e olhe de soslaio;

Dê a ti mesmo, 
Papagaio bem treinado,
Um dicionário,
Para aprender novas palavras, 
e formar novas frases,
Que não as fornecidas pelo Estado;

Quantos são como você?
Eternos Mr. Jones,
De maleta na mão;
Procure nesse dicionário as palavras 
"Anarquismo", "fatos", "mudança" e "união"
Antes de acompanhá-las numa placa
Da palavra "não";

E, se pesquisar bem,
Sentar no sofá, com o controle na mão,
Vendo o telejornal,
Ficar com ele contra sua população, 
Seus irmãos e sua Nacão,
Sendo uma massa de modelar, sem ação,
Não é sinônimo de fazer mudança,
Muito menos de revolução.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Vaias psicóticas

     Ah, infância, época que carrega centenas de lembranças e sentimentos. Você fazia o que bem quisesse, sem pensar na possibilidade de isso o seguir pelo resto da vida. Colocava a roupa que sua mãe mandava, e nem por um segundo cogitava em pensar no papelão que iria passar. Penteava o cabelo de um modo que se tentasse hoje perderia metade dele só tentando. Falava com qualquer um da sua idade, e em poucos minutos já o considerava seu melhor amigo do mundo todo (pelo menos até a festinha de aniversário acabar ou você ter de voltar para casa). Seu único problema, cara companheira, é ser tão breve.

"A morte deixada"

Não mais ao pé do leito derradeiro,
Mas na mira de um tiro certeiro,
Anotado num ficheiro,
Dum necrotério lotado;


Perto da praça,
Onde amantes andam de mãos dadas,
Cheios de esperanças criadas,
Numa luz opaca batendo na vidraça;
Escoando a água pelos olhos,
Enquanto os dentes rangem descontentes,
Com o pensamento num gatilho,
Junto de outros que se fazem de crentes,
E com o eco do silêncio vigente;
Retiram a vida de uma memória deixada,
Por um tiro certeiro,
Que na luz opaca,
Na vidraça quebrada,
E o brilho da lágrima,
Escassa de esperanças,
Que se convertem em nada,
Numa lástima alada;
Já em seu coração,
A plena desgraça.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

"Ser complicado"


Resolvi ser completo,
Mas no quebra-cabeça falhei;
Pois ser totalmente reto já não sei;
Afinal de contas não sou rei;


Ser tudo, ser nada;
Ser mais do que nada: ser cinzas.
Ser infinito, por um momento falido;
Caído na carcaça de um pensamento sem graça;

Por isso eu ando, eu manco;
Sem saber o que sei.
Ser conde, visconde, ser Alexandre, o Grande.
Mim não ser nada, nem índio serei.
Ser sonhador, um ser pensante
Ser melancólico por um dia e feliz por um instante;
Não essa velha lixeira ambulante.
Ser aquilo que quero ser;
Caído, ranzinza, na calça pisada e gola amassada.
Sentado num canto, um bebum com balanço;
Na sala rachada, com a mente quebrada.
Moribundo, um grande engano;
No fim, não mais que um ser humano.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

"Senso Giratório"


Gira o mundo;
Gira tudo;
Do peão no chão;
Gira no copo o canudo;

Gira o dia e vira a noite;
Girando no povo,
O pensamento do novo,
Trancado no estojo,
Que gira no mundo;
Que você mal vê e já muda,
com mil vozes estonteadas que giram e cantam em coro;

Gira a mente,
que desmente,
o giro do povo que mente,
e mete no giro o gingado,
do giro comum;

Giro o mundo, na cadeira,
e esperneia e semeia;
gira tudo;
só não gira esse pensamento,
junto desses sentimentos,
cada qual, sem igual, longe do fim,
do mundo girar em torno de mim.