quarta-feira, 27 de maio de 2015

Desapontamos
Os pontos
Destampados
E nossos ossos
Desgostosos
Vão nos
Desmontando

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Tão longe estamos
Sempre do horizonte
Tão deveras distantes
Do horizonte escarlate
Que sangra de saudade
E sobressai
A clareza dos anos

terça-feira, 19 de maio de 2015

Arte

Depois de me ater,
         Viver, entediar
Vendo na vida a vida
       Ja tão estabelecida

Uma caveira avistei numa nuvem
      Clara, clara nuvem
E vi que, porventura,
       Não há na vida a vida vivida
A não ser a vida nas cinzas
       Levadas pelo ar
     
Pois do que mais se trataria a vida
      Senão a arte de saber definhar?

terça-feira, 5 de maio de 2015

Sobre genitoras e mães

     Ainda me lembro de ouvir minha mãe chegando em casa de manhã, nos finais de semana, após ter passado a noite trabalhando no hospital. Lembro-me de ir até seu quarto e de deitar ao seu lado, tentanto não fazer barulho para não acordá-la. Nunca consegui. Por mais silencioso que fosse, em poucos instantes eu sentia uma mão a afagar minha cabeça. E afagava. E afagava. Até eu dormir.
     Percebo o quão relevantes foram essas carícias, agora que sei o quão reconfortante pode ser se jogar na cama e simplesmente dormir. Mas ela não o fazia: primeiro ela tinha que fazer seu filho dormir (isso quando outros dois pirralhinhos não surgiam do nada para se deitar ao seu lado também). 
     Quiçá, esse é um dos significados de ser mãe: noites (ou dias) de sono perdidas. Digo de ser mãe, e não genitora. Veja bem, há uma grande cortina de ferro entre as duas palavras. Uma mãe pode ou não ser uma genitora, mas nem toda genitora é uma mãe. Enquanto que ser genitora é apenas ser a mulher que resguardou um indivíduo por 9 meses em seu ventre, ser mãe é uma arte, um desafio, às vezes quase tortuoso, um compromisso de amar incondicionalmente um outro indivíduo, de esperar o melhor dele, de ,em alguns casos, passar fome por ele, de passar por cada fase insuportável, desde a infância até, em alguns casos, a velhície.
      Diferentemente de ser genitora, uma mãe não precisa, necessariamente, de ter laços sanguíneos, pois ela encontra todos os laços necessários no interior do sentimento. Ser mãe é ser um paradoxo. O sentimento faz a mãe ou a mãe origina o sentimento? Quem nasceu primeiro, o filho ou a mãe? Ser mãe é ter aquele cheiro peculiar, o abraço peculiar, o toque peculiar. Ser mãe é ser filha. Ser mãe é ser, na maioria das vezes, sua única amiga, a pessoa que vai te reconfortar e dizer que "você não é gordo, você é forte", e ser mãe é ser a última pessoa que um filho quer ver chorar, e que se chora a cena se torna mais comovente do que milhares de desastres naturais.
      Certa vez perguntei para minha mãe se ela queria ter um filho aos 15 anos, e ela olhou nos meus olhos e disse que sempre quis ter alguém como eu na vida dela. E talvez esse seja mais um significado de ser mãe: simplesmente ser mãe. Demasiadamente mãe.
       Mesmo após todo esse tempo, e neste Dia das Mães, ainda sinto suas mãos em meus cabelos, e, se eu tiver sorte, nunca irei me esquecer.
        E afagava.
              E afagava.