quinta-feira, 27 de novembro de 2014

"Adeus, negada" (Poesia especial de fim de escola)


Cheguei, minha negada,
Na serra pelada,
Ao som de um pandeiro festeiro;

Cai dentro de mim, amigo estimado,
Das alegrias do povo, no estopim,
Onde o reto é mais um torto,
Que embora agora vai;
- Adeus! - digo enfim;

- Mas para onde tu vais? - milhares perguntam;
Respondo que para onde for,
Vou com o universo atrás;
- E onde ficarás?
- Responder irei quando descobrir onde estou;

- Perdido irá ficar - insistem em dizer;
- Perdidos todos estamos, e não há o que fazer;
E sento na sargeta, minha única certeza de apoio;
Sei que todos olham pelo canto do olho;

- Fique com Deus, então! - Despedem-se.
- Pois não: Fiquem para vocês!
Por onde trilho, agora trilho sozinho,
Sem nenhum milagre no caminho

Pensando na vida, uma comparação:
Fora uma vida cega,
Sou um alimento fora de seu vidro de conserva;
Ai de mim, minha querida;
Espero ser um alimento difícil de se fazer,
Mas mais gostoso de se comer,
Pois assim o caminho é mais longo,
E sei que no fim todos vamos perecer.

Cheguei, minha negada,
E já vou,
Pelo caminho que ninguém trilhou,
Sem replay, sem bis:
Aqui vai um alimento feliz.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

"Natureba"

Ascenda-te em ti mesmo sua alma filantropa,
aos subterrâneos da liberdade,
ao magistério do saber,
à instituição da verdade;
tire sua face, sua roupa usada;

Caia nessa festa,

na clandestinidade;
seja feliz pelos instantes
que, triunfantes,
retiraram as ralés da humanidade;

Voe ao cair

mas tente ao menos voar;
erga-se no ar,
galinha sem asas,
ou role nas estradas da liberdade contestadora e mangueba:
nossa subterrânea natureba.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

"Um monstro, um desejo"


Espelho que vejo,
Fitando ao olhar,
Condena o desejo,
O mais louco gracejo;

Esse tabu malcriado,
A mancha do horror,
Quebrando as vidraças,
Eterno enjaulado;

Não saia daqui;
Apenas tu sabes,
Pois tu és o vazio,
Que apenas dentro de mim cabe;
Enigmático monstro,
Monto-te e romonto,
Meu ser vibrante;

Daí não sairás,
A chave já perdida
Não lhe libertarás.
Mas nada irás fazer,
Enquanto aqui estiver;
Imagem no espelho, vós sois.
Quem vós copiais, sois eu.

Não me condenas,
E me perdoe por te trancafiar,
Pois dos males tu és o menor.
Olhando no espelho,
Tenho pena
De tudo aquilo que,
Dentro de mim, 
Terás de enfrentar.