terça-feira, 30 de dezembro de 2014

"Sino"



Ninguém viu
Ninguém foi
Ninguém sabe

Ninguém leu
Ninguém mede
Ninguém arde

Mas todos dizem
Todos escrevem
Todos fazem alarde 

Todos vão dormir tarde
Todos ignoram o sino
Todos se despedem
De seu próspero destino

E quando assim foi
Já que ninguém viu
Ninguém soube
Quando isso nos diminuiu.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

"Universo"

Tudo é um termo
De ênfase, de desleixo
Sem fase e sem eixo,
Ligado assim, simples e tal
Por bem ou por mal;

Opostos coniventes
Carregando Canivetes
E palavras iguais
Bonitinhos, puxaram os pais!

Do começo ao fim,
Sem um meio,
Mas com um beijo no seio

Onde até o Universo,
O infinito estreito, com eixo conexo

Termina num simples verso

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

"Adeus, negada" (Poesia especial de fim de escola)


Cheguei, minha negada,
Na serra pelada,
Ao som de um pandeiro festeiro;

Cai dentro de mim, amigo estimado,
Das alegrias do povo, no estopim,
Onde o reto é mais um torto,
Que embora agora vai;
- Adeus! - digo enfim;

- Mas para onde tu vais? - milhares perguntam;
Respondo que para onde for,
Vou com o universo atrás;
- E onde ficarás?
- Responder irei quando descobrir onde estou;

- Perdido irá ficar - insistem em dizer;
- Perdidos todos estamos, e não há o que fazer;
E sento na sargeta, minha única certeza de apoio;
Sei que todos olham pelo canto do olho;

- Fique com Deus, então! - Despedem-se.
- Pois não: Fiquem para vocês!
Por onde trilho, agora trilho sozinho,
Sem nenhum milagre no caminho

Pensando na vida, uma comparação:
Fora uma vida cega,
Sou um alimento fora de seu vidro de conserva;
Ai de mim, minha querida;
Espero ser um alimento difícil de se fazer,
Mas mais gostoso de se comer,
Pois assim o caminho é mais longo,
E sei que no fim todos vamos perecer.

Cheguei, minha negada,
E já vou,
Pelo caminho que ninguém trilhou,
Sem replay, sem bis:
Aqui vai um alimento feliz.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

"Natureba"

Ascenda-te em ti mesmo sua alma filantropa,
aos subterrâneos da liberdade,
ao magistério do saber,
à instituição da verdade;
tire sua face, sua roupa usada;

Caia nessa festa,

na clandestinidade;
seja feliz pelos instantes
que, triunfantes,
retiraram as ralés da humanidade;

Voe ao cair

mas tente ao menos voar;
erga-se no ar,
galinha sem asas,
ou role nas estradas da liberdade contestadora e mangueba:
nossa subterrânea natureba.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

"Um monstro, um desejo"


Espelho que vejo,
Fitando ao olhar,
Condena o desejo,
O mais louco gracejo;

Esse tabu malcriado,
A mancha do horror,
Quebrando as vidraças,
Eterno enjaulado;

Não saia daqui;
Apenas tu sabes,
Pois tu és o vazio,
Que apenas dentro de mim cabe;
Enigmático monstro,
Monto-te e romonto,
Meu ser vibrante;

Daí não sairás,
A chave já perdida
Não lhe libertarás.
Mas nada irás fazer,
Enquanto aqui estiver;
Imagem no espelho, vós sois.
Quem vós copiais, sois eu.

Não me condenas,
E me perdoe por te trancafiar,
Pois dos males tu és o menor.
Olhando no espelho,
Tenho pena
De tudo aquilo que,
Dentro de mim, 
Terás de enfrentar.

domingo, 26 de outubro de 2014

"A balada do Sr. João"



Obrigado pela visita,
Caro endividado,
Cujas ações acolhem o custo da dívida mista,
E mal põe comida no prato.
Pague-a por hoje e olhe de soslaio;

Dê a ti mesmo, 
Papagaio bem treinado,
Um dicionário,
Para aprender novas palavras, 
e formar novas frases,
Que não as fornecidas pelo Estado;

Quantos são como você?
Eternos Mr. Jones,
De maleta na mão;
Procure nesse dicionário as palavras 
"Anarquismo", "fatos", "mudança" e "união"
Antes de acompanhá-las numa placa
Da palavra "não";

E, se pesquisar bem,
Sentar no sofá, com o controle na mão,
Vendo o telejornal,
Ficar com ele contra sua população, 
Seus irmãos e sua Nacão,
Sendo uma massa de modelar, sem ação,
Não é sinônimo de fazer mudança,
Muito menos de revolução.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Vaias psicóticas

     Ah, infância, época que carrega centenas de lembranças e sentimentos. Você fazia o que bem quisesse, sem pensar na possibilidade de isso o seguir pelo resto da vida. Colocava a roupa que sua mãe mandava, e nem por um segundo cogitava em pensar no papelão que iria passar. Penteava o cabelo de um modo que se tentasse hoje perderia metade dele só tentando. Falava com qualquer um da sua idade, e em poucos minutos já o considerava seu melhor amigo do mundo todo (pelo menos até a festinha de aniversário acabar ou você ter de voltar para casa). Seu único problema, cara companheira, é ser tão breve.

"A morte deixada"

Não mais ao pé do leito derradeiro,
Mas na mira de um tiro certeiro,
Anotado num ficheiro,
Dum necrotério lotado;


Perto da praça,
Onde amantes andam de mãos dadas,
Cheios de esperanças criadas,
Numa luz opaca batendo na vidraça;
Escoando a água pelos olhos,
Enquanto os dentes rangem descontentes,
Com o pensamento num gatilho,
Junto de outros que se fazem de crentes,
E com o eco do silêncio vigente;
Retiram a vida de uma memória deixada,
Por um tiro certeiro,
Que na luz opaca,
Na vidraça quebrada,
E o brilho da lágrima,
Escassa de esperanças,
Que se convertem em nada,
Numa lástima alada;
Já em seu coração,
A plena desgraça.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

"Ser complicado"


Resolvi ser completo,
Mas no quebra-cabeça falhei;
Pois ser totalmente reto já não sei;
Afinal de contas não sou rei;


Ser tudo, ser nada;
Ser mais do que nada: ser cinzas.
Ser infinito, por um momento falido;
Caído na carcaça de um pensamento sem graça;

Por isso eu ando, eu manco;
Sem saber o que sei.
Ser conde, visconde, ser Alexandre, o Grande.
Mim não ser nada, nem índio serei.
Ser sonhador, um ser pensante
Ser melancólico por um dia e feliz por um instante;
Não essa velha lixeira ambulante.
Ser aquilo que quero ser;
Caído, ranzinza, na calça pisada e gola amassada.
Sentado num canto, um bebum com balanço;
Na sala rachada, com a mente quebrada.
Moribundo, um grande engano;
No fim, não mais que um ser humano.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

"Senso Giratório"


Gira o mundo;
Gira tudo;
Do peão no chão;
Gira no copo o canudo;

Gira o dia e vira a noite;
Girando no povo,
O pensamento do novo,
Trancado no estojo,
Que gira no mundo;
Que você mal vê e já muda,
com mil vozes estonteadas que giram e cantam em coro;

Gira a mente,
que desmente,
o giro do povo que mente,
e mete no giro o gingado,
do giro comum;

Giro o mundo, na cadeira,
e esperneia e semeia;
gira tudo;
só não gira esse pensamento,
junto desses sentimentos,
cada qual, sem igual, longe do fim,
do mundo girar em torno de mim.