Leonardo acordou pela manhã e decidiu: "A partir de hoje, serei adulto!". Não tinha graça ser criança. Então, reuniu tudo aquilo de peculiar que notava no comportamento de alguns adultos ao seu redor, e escreveu num bloco de papel, numa lista.
Ainda antes da escola, pôs-se a seguir a lista. O primeiro passo era ler jornal. Apanhou o jornal, sentou-se na mesa com uma xícara de café e começou a lê-lo na sessão de política. Não entendeu muita coisa, pois não lia muito bem. No entanto, disse: "Que absurdo! Este País tá perdido mesmo. Político é tudo corrupto!".
Leonardo, contudo, não se sentia mais adulto.
Largou a xícara de café na pia. "A mãe limpa depois. Homem não limpa pia", pensou. Aprontou-se para a escola e ficou esperando o ônibus escolar na calçada. Em dado momento, uma mulher de vestido e com largos quadris passou. "Gostosa", gritou Leonardo, lembrando-se que adultos faziam aquilo. A mulher ignorou e continuou a caminhada.
Leonardo, contudo, não se sentia mais adulto.
Neste momento, o ônibus chegou.
Dentro do ônibus, Leonardo se sentou à janela, num dos primeiros bancos. Poderia se sentar com os amigos no fundão, mas agora ele era um adulto. "Adultos não se sentam no fundão". Para evitar prestar atenção nas brincadeiras infantis dos colegas, ele ficou olhando para a rua. Logo, avistou um casal homossexual de mãos dadas na rua. A amiga que estava sentada ao seu lado não demonstrou problema algum, mas Leonardo se lembrou de algo que seu pai sempre dizia e repetiu, "Nossa, que viadagem. Pra que isso, heim?".
Leonardo, contudo, não se sentia mais adulto.
Já na sala de aula, Leonardo continuou com a lista. Quando um amigo pediu para que ele lhe emprestasse dinheiro para comprar bala, Leonardo o fez com juros. Quando arrancou uma página do caderno, Leonardo a jogou no chão. Quando comeu uma banana, Leonardo jogou a casca em um amigo negro. Bebeu refrigerante ao invés de suco (procurou cerveja na geladeira de casa, mas sabia que não terminaria bem pra ele se fizesse algo do tipo na escola. Então, pegou uma guaraná, porque a cor era parecida, e ficou satisfeito). Contou piadas sujas que ouvira do tio; comentou sobre o Big Brother, sobre o jogo de futebol; disse aos amigos que um dia iria mudar de país porque o Brasil era uma merda. "Este País não vai pra frente", disse balançando a cabeça em reprovação.
Leonardo, contudo, não se sentia mais adulto.
Acabou a escola e ele voltou para o ônibus escolar. Dessa vez, sentou-se ao seu lado um garoto com as roupas surradas e remendadas, e com uma mochila velha. Leonardo lembrou-se do que já ouvira falar sobre pobres serem todos ladrões, e logo colocou suas coisas onde o garoto não pudesse tocar. Decidiu que não gostava de transporte público.
Leonardo, contudo, não se sentia mais adulto.
Chegou em casa e foi tomar banho. Já havia terminado de se banhar aos 5 minutos do banho, mas se lembrou que seu pai e sua mãe sempre demoravam, no mínimo, meia hora. Para se assegurar, ficou lá por mais tempo. Após isso, estava com vontade de brincar com seus brinquedos. "Adultos não brincam", se lembrou, e foi ver tevê. Colocou num telejornal e ficou assistindo. Nele, havia uma reportagem sobre uma manifestação. "Bando de desocupados", pensou. "A polícia tem que descer bala mesmo!". Colocou em outro telejornal, e ao passo de tudo que via, como racismo, corrupção, homofobia, exploração do trabalhador, desmatamento, Leonardo fazia como via os adultos fazendo e exclamava "Que absurdo! Que absurdo! Este mundo está perdido! Que absurdo! Haja paciência!".
Quando se cansou, Leonardo foi para a cama. Já havia terminado toda a lista.
Leonardo, contudo, não se sentia mais adulto.
Não se sentia criança também.
Ele só não sabia o que era agora.
Se ele fizera tudo aquilo para se sentir maior, por que, então, se sentia menor do que nunca?
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