Era uma vez Celofane. Um ser pequeno, um ser que pisado se pisava. Coitado, um ser tão vazio!
Celofane ia à escola e Celofane queria acreditar que seu futuro era certo. Amava crer que sabia de algumas coisas. Olhava com olhos vazios, pensava que pensava pensamentos cheios de tudo aquilo que não suportava crer que era, e nutria um sentimento incontrolável de ir contra sua natureza e ser tudo aquilo que sabia que nunca poderia ser.
Celofane não era visto perante ninguém. Tentava, como todos. Odiava se sentir transparente, mas não compartilhava isso com ninguém. Afinal, como compartilhar? Celofane era vazio, um ser tão vazio!
Celofane se sentia como um pão sem miolo. E como se odiava por não ser completo!
Amava ler em livros as bravas histórias de seres perfeitos, que pareciam nascer com um dom nato. Celofane achava que só encontraria isso em livros, mas celofane foi crescendo, e viu que vários ao seu redor se tornariam esses seres e o deixariam para trás em breve. Todos eles iriam rumo ao pico do mundo, menos Celofane.
Celofane se isolou. Celofane supôs que assim não notariam sua falta de miolos, o quanto ele não era grande como tentava mostrar.
E é claro que ele não mostrava para os outros o quanto se sentia inferior a eles. Como poderia admitir algo do tipo? Morreria, céus, e como morreria!
O mesmo Celofane ele era. O mesmo pão sem miolos.
Odiava os mais próximos por serem tão melhores que ele. Odiava não ter sido digno de ser o que muitos eram, por ter tanta dificulade de ser apenas um mínimo. Nutria uma inveja frenética por não ser o que queria ser, e junto nutria o pesar, a incredulidade, o ódio sobre si próprio por ser o que era. Apenas mais um Celofane
Havia dias em que Celofane não se olhava no espelho.
Havia dias em que Celofane pintava uma caricatura, uma bela imagem e a colocava frente à sua face para impressionar os seres que tanto invejava. Veja bem, não era uma questão de aprovação, mas sim de se auto-provar e se enganar. Ele queria apenas ser como os seres, mas era só um Celofane.
Celofane era persistente. Celofane lia tudo aquilo que podia e amava mostrar este fato para os outros, qual um grito de existência. Se ele absorvia o conteúdo, não saberia dizer. Apenas lia e queria ler mais. Lia sobre arte, lia sobre a sociedade, poesia, filosofia e psicologia. Queria entender como os seres ao seu redor eram tão melhores que ele. Queria saber como ele poderia ficar como os seres ao redor. No entanto, celofane apenas se conheceu melhor. Agora com um certo estudo sobre a mente do mundo, Celofane se odiava melhor.
Celofane escrevia baboseiras.
Celofane sentia sentimentos insensitíveis.
Celofane via os seres progredindo.
Celofane ficava para trás.
Sempre para trás.
Se Celofane pudesse escolher algo, escolheria não ser um Celofane. Escolheria ser um intocável, um desses seres que almejava e que estavam ao seu redor.
Celofane um dia se deu por si. Celofane viu que seus pais gastaram uma fortuna em sua educação em vão, pois ele havia encontrado uma barreira, qual um limite para sua mente, de onde não conseguia passar. Celofane viu os seres já no pico do mundo. Eles olhavam para o mundo lá embaixo e não o viam mais, pois ele era tão pequeno, ainda mais pequeno em meio às pessoas. Celofane viu no pico aqueles que um dia foram seus amigos, viu seu irmão, viu seus inimigos.
Celofane se agachou.
De cócoras, chorou.
Ninguém reparou.
Porque era apenas o Celofane.
Mas essa é uma situação hipotética. Celofane não existe de verdade. Talvez não. Como poderia saber? Era um ser tão pequenino, tão vazio!
Se sabemos de uma coisa, é que Celofane amava escrever.
E escreveu. Escreveu. Até o dia em que a caneta caiu de sua mão, no dia em que não se sentia mais digno mesmo de tal ato.
Era um ser tão vazio!
Pobre celofane!
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