sábado, 4 de abril de 2015

Sobre encontros desencontrados

     Não é novidade, e nem nunca foi, aquele singelo momento em que, andando por algum lugar, você vê um rosto conhecido. Não um rosto amigo: um rosto conhecido. Pode acontecer enquanto passa de carro e o semáforo é sujeito ao brilhante acaso de paralisar bem no momento em que alguém que um dia você conheceu está ao seu lado, ou num simples almoço em um local rotineiro. Não dura muito, mas às vezes surge em nós um efeito retardado de "Nossa, acho que conhecia essa pessoa. Vou olhar pro outro lado antes de.... Ela olhou... Seja educado" (balançada de rosto, sorriso momentâneo para mostrar reconhecimento, desvio de visão a qualquer outro lugar para encerrar o assunto ali). 


     Todo ser humano faz ou já fez isso um dia. Como já disse, isso não é novidade. E, como muitas outras coisas, piora com a idade. A carga de rostos conhecidos só aumenta com o tempo, e a única escapatória encontrada é esquecer. Não irá se esquecer da pessoa, mas para o mundo será como se tivesse, assim como para a pessoa. Mesmo que não pareça, o mesmo está ocorrendo com ela. Porque ambos sabem, em seus âmagos, quem é um e outro. Alguns podem chamar isso de "o seguir em frente da vida". Não discuto com esta frase. A vida realmente toma outros rumos, e talvez alguém que um dia foi seu melhor amigo vira apenas mais um estranho no shopping. "A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida". É inegável: todos dominamos essa arte.
     No entanto, sua mente faz o trabalho dela. Nos próximos segundos você irá se perder em pequenos pensamentos, ao tentar se recordar da pessoa. Histórias de um passado talvez não tão distante. Se a memória for boa, ouso dizer que "aquela-pessoa-quase-desconhecida-no-shopping" lhe causará um pequeno sorriso. Aquele ser, que um dia você dizia conhecer, após tanto tempo provavelmente não lhe significará mais nada. Mas mesmo assim irá sorrir, pelo simples prazer de uma história revista. E não tenha dúvidas: ela nada fez de diferente, e isso é o que conta. 

     Para que memórias, se não para serem relembradas? Para que histórias se nunca serão contadas? Não importa a vida que levou, as pessoa que conheceu, o legado que deixou. Pois no fim é isso o que resta. 
     No fim, todos somos apenas histórias.

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